Do caderno Verso e Prosa de O Globo
A crítica se tornou irrelevante’
Em ‘A grande feira’ Luciano Trigo questiona o sistema contemporâneo de arte
ENTREVISTA Luciano Trigo
Quando começou a expor suas impressões sobre arte contemporânea num blog, em 2007, o escritor Luciano Trigo recebeu muitas reações exaltadas e sentiu, segundo ele, que estava “tocando num ponto sensível”, o das relações da arte com o mercado e as instituições. No fim de 2009 lançou “A grande feira” (Civilização Brasileira), em que sustenta que a arte se mercantilizou, a técnica não é mais importante e a crítica, hoje, está esvaziada.
Suzana Velasco
O GLOBO: “A grande feira” estabelece uma íntima relação entre o mercado e a arte contemporânea.
Mas mesmo obras de artistas mais do que consagrados, como Van Gogh e Gustav Klimt, atingem hoje valores estratosféricos.
O problema seria do mercado ou da arte contemporânea? LUCIANO TRIGO: “A grande feira” não é um livro de crítica de arte, mas um ensaio sobre o sistema da arte hoje, sobre o conjunto de agentes, práticas, instituições e valores que determina que tipo de arte será ou não reconhecido e valorizado.
Isso implica formas de atribuição de valor que fazem obras de matriz conceitual, que reciclam procedimentos de 40 ou até 90 anos atrás (se pensarmos que Marcel Duchamp designou um urinol como obra de arte em 1917), prevalecerem como o mainstream da arte hoje, o que é paradoxal: essa arte que posa de inovadora e transgressora se transformou na arte oficial e acadêmica, pois é ela que se ensina nas escolas. A importância dos artistas mais valorizados hoje, como Damien Hirst e Jeff Koons, reside justamente em valer muito dinheiro, e apenas nisso.
São produtos da mídia e do marketing, feitos para alimentar um sistema dominado unicamente por interesses de mercado, o que não foi o caso de Van Gogh e Klimt.
O livro afirma que a arte contemporânea, diferentemente da arte de outros períodos, está descolada de seu contexto social.
O simples fato de uma foto de Richard Prince ter sido vendida por US$ 1,1 milhão não diria muito sobre nosso tempo? TRIGO: Diz muito sobre o sistema da arte que eu questiono no livro. A foto em questão reproduz a imagem de um anúncio de cigarros, excluindo os letreiros.
Qualquer adolescente pode ter uma ideia parecida. Onde está a arte? Isso só acontece porque não existem mais contrapoderes no sistema, que representem um contrapeso aos interesses mercadológicos. Sem contrapoder, a arte vira um vale-tudo, um gabinete de curiosidades bizarras: aparece um artista amarrando um cachorro faminto num canto da galeria, outro implantando uma orelha no braço, outra filmando um ato sexual com um colecionador, pago por ele…
Isso vem embalado num discurso pretensamente sofisticado.
Se a gente considerar que os traços marcantes de nossa época são a reciclagem e o cinismo, então essa arte é representativa.
Mas não acho que seja assim.
O livro fala de uma “desestetização” da arte atual. Ferreira Gullar costuma dizer que, após as vanguardas, as artes plásticas não conseguiram recuperar sua linguagem, como a literatura depois de Joyce, por exemplo.
Você concorda com isso? TRIGO: A desestetização não é um problema. As últimas vanguardas modernas, nos anos 1960 e 70, expandiram o campo da arte propondo autênticas formas de libertação das convenções vigentes. O problema começa quando formas de expressão artística que nasceram para contestar as instituições e o mercado, como as primeiras obras conceituais, as instalações e os happenings, são reapropriadas e enquadradas pelas instituições e pelo mercado, realimentando um sistema que aproxima a arte da indústria do espetáculo e da moda. O paralelo com a literatura é complicado, mas Gullar tem razão no sentido de que copiar Joyce hoje não teria qualquer relevância, enquanto nas artes plásticas as pessoas copiam Duchamp, designando literalmente qualquer coisa como obra de arte, e apresentam isso como algo novo.
Na história da arte, multiplicamse os casos de grandes artistas que foram incompreendidos e massacrados pela crítica.
Qual o risco de se cometer esse erro ao se generalizar que na arte contemporânea tudo vale? TRIGO: Esse raciocínio leva ao imobilismo. É um argumento que protege de antemão qualquer bobagem que se apresente como arte. Também podemos pensar que o sistema da arte, tal como funciona hoje, está massacrando milhares de artistas incompreendidos, que não compactuam com o estado das coisas e por isso não têm espaço, nem nas galerias nem na mídia.
Ao analisar a pluralidade de meios das quais a arte contemporânea se serve, você afirma que meios tradicionais, como a pintura e a escultura, são hoje rejeitados, e que o saber fazer não importa mais. Excelentes pintores de carreira recente, como Lucia Laguna e Eduardo Berliner, fizeram aula de pintura e têm técnica apurada.
Não seria leviano afirmar que “os próprios professores dizem que saber pintar é bobagem”? TRIGO: Sei de muitos professores que dizem isso, e estudantes do Brasil inteiro já me enviaram mensagens reclamando que as faculdades não ensinam mais técnica. Recebi um e-mail de um artista dizendo que viu bons pintores na faculdade desistirem de seu talento para empilhar caixinhas e rotular objetos. Até mesmo um curador de uma recente Bienal de São Paulo já falou com deboche dos “quadros na parede”. Então não acho leviano. Mas fico feliz por existirem artistas como Lucia Laguna e Eduardo Berliner, cujo trabalho aprecio muito.
Você se concentra em nomes como Damien Hirst e Jeff Koons, cita poucos artistas brasileiros no livro. Mas em diversos momentos afirma que o valetudo da arte mundial se repete no Brasil. Não seria importante citar casos de obras brasileiras para exemplificar suas afirmações? TRIGO: Não me apresento como crítico de arte. Meu gosto pessoal não tem a menor importância.
Então posso afirmar que todos os artistas brasileiros contemporâneos, num contexto de arte globalizada, estão inseridos no sistema que analiso. Mesmo os artistas de que eu gosto — e gosto de muitos. Não escrevi o livro para criticar este ou aquele artista, mas para levantar um debate que me parece necessário sobre o sistema da arte, e que lá fora é travado com intensidade.
Querer transformar esse debate num ataque generalizado aos artistas é fazer uma leitura torta do livro.
O livro decreta a morte da crítica hoje no Brasil, que estaria submetida ao mercado e ao sistema de arte. Por que a crítica chegou a esse estado? TRIGO: Este é um ponto capital.
Caberia à crítica atuar como um contrapoder dentro do sistema da arte, mas ela se tornou irrelevante, porque os críticos trocaram o papel de julgar pelo de testemunhar. O papel da crítica foi esvaziado, e o dos curadores, inflado. Como disse Waltercio Caldas, o curadorismo foi o último “ismo” do século XX.